Perda auditiva e demência: qual é a relação?

Pedir para a pessoa repetir a frase, aumentar o volume da televisão, evitar restaurantes barulhentos: muita gente encara esses hábitos como “coisa da idade” e deixa para depois. O problema é que ouvir mal não afeta só a conversa. A ciência vem tratando a audição como parte da saúde do cérebro, e a relação entre perda auditiva e demência é hoje um dos temas mais discutidos na prevenção do declínio cognitivo.

Quantas pessoas convivem com perda auditiva?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em atualização de março de 2026, cerca de 2,5 bilhões de pessoas devem ter algum grau de perda auditiva até 2050, e mais de 700 milhões vão precisar de reabilitação. Hoje, mais de 5% da população mundial, ou aproximadamente 430 milhões de pessoas, já precisa de reabilitação por perda auditiva incapacitante.

A OMS define perda auditiva incapacitante como aquela acima de 35 decibéis (dB) no ouvido que escuta melhor. E a frequência aumenta com a idade: entre pessoas com mais de 60 anos, mais de 25% são afetadas.

Esses números mostram que não se trata de um problema raro nem restrito a quem já está muito idoso. A mesma fonte lembra que várias causas podem aparecer em diferentes fases da vida, como doenças crônicas, tabagismo, exposição a ruído intenso, uso de medicamentos que podem prejudicar a audição (ototóxicos), acúmulo de cera e alterações próprias do envelhecimento do ouvido interno.

O que a Comissão Lancet 2024 concluiu

Em 31 de julho de 2024, a Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado da demência publicou um relatório atualizado. O documento reúne 14 fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida, entre eles a perda auditiva, a hipertensão, o tabagismo, a obesidade, a depressão, o isolamento social e a inatividade física. Nessa atualização, entraram a perda de visão não tratada e o colesterol LDL elevado.

Sobre a audição, o relatório destaca que a evidência de que tratar a perda auditiva reduz o risco de demência está mais forte do que na edição anterior, de 2020. Quatro estudos que avaliaram a relação dose-resposta apontaram que, a cada 10 dB de piora na audição, o risco de demência aumenta.

Além disso, em uma revisão de oito estudos, quem usava aparelho auditivo apresentou risco significativamente menor de demência do que quem não usava. Na nova análise para a fase intermediária da vida, a perda auditiva aparece com cerca de 7% na estimativa da fração de demência atribuível aos fatores de risco avaliados, segundo a Federação Europeia de Pessoas com Perda Auditiva (EFHOH).

Associação não é sentença

É importante ler esses achados com cuidado. Os estudos mostram associação entre ouvir pior e ter mais risco de demência. Isso não significa que toda pessoa com perda auditiva vai desenvolver demência, nem que um aparelho auditivo “previne” a doença com garantia. A comissão trata a perda auditiva como um fator de risco que pode ser modificado, e a recomendação central é identificar e tratar o problema cedo.

Os mecanismos exatos ainda são objeto de debate entre pesquisadores. O que há de consenso é que ignorar a perda auditiva não traz benefício algum e pode trazer prejuízos conhecidos. A própria OMS aponta que a perda auditiva não tratada limita a comunicação, pode afetar a cognição, favorece o isolamento social e a solidão e está ligada a maior risco de demência e declínio cognitivo mais acelerado.

Sinais de que vale investigar a audição

Algumas situações costumam indicar que é hora de fazer uma avaliação:

  • pedir com frequência que repitam o que foi dito;
  • dificuldade para entender conversas em ambientes com barulho, como restaurantes e reuniões;
  • aumentar o volume da TV ou do celular acima do que os demais da casa toleram;
  • ter a sensação de que as pessoas “falam baixo” ou “enrolam as palavras”;
  • evitar encontros sociais por cansaço ou constrangimento ao conversar.

A OMS lembra que a perda auditiva dificulta entender a fala em conversas e sons altos. Se você se reconhece em mais de um desses pontos, a avaliação vale a pena, mesmo que ainda não incomode muito. Familiares também podem perceber antes: muitas vezes a pessoa que ouve mal demora a admitir.

Como é a avaliação com o otorrinolaringologista

A investigação começa com conversa sobre sintomas, histórico de saúde, uso de medicamentos, exposição a ruído e antecedentes familiares. Depois, o otorrinolaringologista examina o conduto auditivo e o tímpano. Esse exame é importante porque parte das perdas auditivas tem causa simples e tratável, como acúmulo de cera, e outras exigem investigação mais detalhada.

O exame mais usado para quantificar a audição é a audiometria, realizada com apoio de fonoaudiologia, que mostra em quais frequências a pessoa escuta menos e se o problema é de condução (ouvido externo ou médio) ou neurossensorial (ouvido interno e via auditiva).

A OMS recomenda triagem auditiva para grupos de maior risco, incluindo idosos, pessoas expostas a ruído ou a substâncias químicas no trabalho e pessoas que usam medicamentos potencialmente ototóxicos.

Tratamento e reabilitação

O caminho depende da causa. Quando o problema está no ouvido externo ou médio, pode haver tratamento clínico ou cirúrgico.

Quando a perda é neurossensorial, a reabilitação costuma envolver tecnologias de amplificação, como aparelhos auditivos, e, em casos mais graves, implantes como o implante coclear. A OMS inclui ainda terapia de fala e linguagem, dispositivos de apoio à escuta e orientação para participação na vida familiar, escolar e profissional.

O ponto central é que o aparelho auditivo exige adaptação e acompanhamento. Não basta comprar e colocar: é preciso que o dispositivo seja indicado e regulado para a perda daquela pessoa, e que haja tempo de adaptação. Por isso, a escolha deve partir de uma avaliação profissional.

O que você pode fazer hoje para proteger a audição

Várias causas de perda auditiva em adultos são evitáveis, segundo a OMS. Algumas medidas práticas:

  • reduzir a exposição a sons altos, inclusive em fones de ouvido, shows e ambientes de trabalho barulhentos;
  • usar protetor auditivo quando houver exposição ocupacional ao ruído;
  • evitar automedicação, já que alguns medicamentos podem prejudicar a audição e só devem ser usados com orientação médica;
  • tratar doenças crônicas e não fumar, pois ambos aparecem entre os fatores associados à perda auditiva em adultos;
  • não ignorar queda súbita da audição: se ouvir pior de repente, procure atendimento sem demora.

A relação entre perda auditiva e demência não é motivo para alarme, mas é um bom motivo para ação. Ouvir bem ajuda a manter a conversa, o convívio e a participação social, e a ciência aponta que tratar a perda auditiva é uma das medidas que podem reduzir riscos ao longo da vida. Se você ou alguém da sua família percebe dificuldade para ouvir, o próximo passo é simples: fazer uma avaliação.

Notou dificuldade para ouvir ou percebe isso em alguém da família? Agende uma avaliação com a Dra. Mara Gândara, médica otorrinolaringologista, no consultório na Rua Teodoro Sampaio, 407, cj. 13, São Paulo. Telefones: (11) 3062-8121 | (11) 99916-5945.

Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Deafness and hearing loss (ficha informativa). 3 mar. 2026. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/deafness-and-hearing-loss
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Hearing loss and the role of health care providers (página institucional; sem data de atualização exibida). https://www.who.int/teams/noncommunicable-diseases/sensory-functions-disability-and-rehabilitation/ear-and-hearing-care/hearing-loss-and-the-role-of-health-care-providers
  3. Livingston G. et al. / Lancet Standing Commission on Dementia. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, v. 404, p. 572–628, 31 jul. 2024. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)01296-0/fulltext
  4. Alzheimer Europe. 2024 Lancet Commission underscores the potential for dementia risk reduction, identifying 14 modifiable risk factors across the life course. 31 jul. 2024. https://www.alzheimer-europe.org/news/2024-lancet-commission-underscores-potential-dementia-risk-reduction-identifying-14-modifiable
  5. Psychiatrist.com. Lancet Commission Identifies 2 New Modifiable Dementia Risk Factors. 2024 (data exata não exibida na página). https://www.psychiatrist.com/news/lancet-commission-identifies-2-new-modifiable-dementia-risk-factors/
  6. ENT & Audiology News. Hearing care and dementia: professional insights on the new Lancet Commission findings. 2024 (data exata não exibida na página). https://entandaudiologynews.com/features/audiology-features/post/beyond-hearing-aids-early-interventions-in-hearing-care-to-lower-dementia-risk
  7. European Federation of Hard of Hearing People (EFHOH). Comentário sobre a atualização de 2024 da Comissão Lancet sobre demência. 2024 (data exata não exibida na página). https://efhoh.org/?p=5576

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