Seu filho responde menos quando você chama, pede para repetir, aumenta o volume da televisão ou parece “não prestar atenção” na escola.
Em muitos casos, a explicação não é falta de interesse: pode ser líquido no ouvido da criança, uma condição frequente que os médicos chamam de otite média com efusão (OME).
Ela costuma assustar menos do que uma infecção aguda, porque pode não causar dor, mas merece atenção, principalmente pelo efeito sobre a audição.
O que é a otite média com efusão
A OME é a presença de líquido na orelha média, a região que fica atrás do tímpano, sem os sinais de uma infecção aguda de ouvido, como dor forte e febre. Por isso, é diferente da otite aguda.
A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNSF), atualizada em 2016, descreve a OME como um problema típico da primeira infância e voltado a crianças de 2 meses a 12 anos.
O líquido na orelha média pode atrapalhar a vibração do tímpano e dos ossículos e, com isso, reduzir a audição de forma temporária. Em outras palavras, a criança pode ouvir “abafado”, como se estivesse com algodão nos ouvidos.
Por que isso importa para a fala e a escola
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que a perda auditiva não tratada em crianças pode atrasar o desenvolvimento da fala e da linguagem, atrapalhar o desenvolvimento cognitivo e limitar a interação social, com consequências para o desempenho escolar.
Na campanha do Dia Mundial da Audição de 2026, a OMS citou a OME entre as condições comuns e tratáveis que causam perda auditiva em crianças, ao lado da otite crônica com secreção e do acúmulo de cera.
A OMS também informa que cerca de 60% das perdas auditivas na infância têm causas evitáveis por medidas de saúde pública. E o contexto é amplo: mais de 95 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos convivem com perda auditiva no mundo.
Como o médico confirma o diagnóstico
A diretriz recomenda que o profissional documente a presença de líquido na orelha média com otoscopia pneumática, um exame que avalia o movimento do tímpano. Esse cuidado evita diagnósticos imprecisos. Quando a OME persiste, a avaliação deve incluir um teste de audição adequado para a idade da criança.
Observar também é tratar
Aqui está um ponto que surpreende muitos pais: em crianças que não têm fatores de risco, a conduta indicada pela diretriz é a observação atenta por 3 meses, contados a partir do início do líquido (quando se sabe) ou do diagnóstico (quando não se sabe).
O motivo é que muitos casos se resolvem sozinhos, principalmente quando o líquido está presente há menos de três meses.
Segundo o resumo publicado pela revista American Family Physician, a diretriz também aponta que não há benefício clínico comprovado de tratamentos medicamentosos para OME.
Por isso, a observação evita encaminhamentos, exames e cirurgias desnecessários em crianças com quadro de curta duração.
Observar não significa ignorar. Durante esse período, os pais devem acompanhar a audição, a fala e o comportamento da criança, e retornar ao médico se houver piora, dor, febre ou secreção.
Crianças de maior risco
Nem toda criança com líquido no ouvido deve esperar três meses. A diretriz identifica crianças com risco de problemas de desenvolvimento por causa da OME, como aquelas com alterações de fala, linguagem ou aprendizado já conhecidas.
Nesses casos, o acompanhamento é mais próximo e as decisões são individualizadas. Quem avalia se a criança entra nesse grupo é o médico, com base no histórico e nos exames.
Quando se pensa em tubo de ventilação
Se o líquido persiste e há perda auditiva, o otorrinolaringologista pode indicar o tubo de ventilação (também chamado de tubo de timpanostomia ou, em inglês, grommet).
A diretriz recomenda oferecer os tubos para crianças a partir de 6 meses com perda auditiva e OME bilateral por 3 meses ou mais, e também quando a resolução espontânea é improvável.
A duração prolongada do líquido aumenta o risco de dano estrutural ao tímpano, outro motivo para não deixar o quadro sem acompanhamento.
Outro esclarecimento importante vem da diretriz específica sobre tubos: eles não são indicados para crianças com otites agudas de repetição que não têm líquido no ouvido entre os episódios. Ou seja, a indicação depende do quadro, não apenas do número de infecções.
Sinais que pedem uma avaliação
Alguns sinais podem sugerir que a audição da criança merece atenção:
- pedir para repetir com frequência ou responder “o quê?” o tempo todo;
- aumentar o volume da TV, do tablet ou do celular;
- desatenção na escola ou dificuldade para acompanhar a aula;
- atraso ou alterações na fala;
- ouvido “tapado” ou queixas de sensação de pressão;
- irritabilidade ou dificuldade para acompanhar conversas em grupo.
Nenhum desses sinais indica OME por si só, e muitos têm outras explicações. Por isso, o ideal é uma avaliação com otorrinolaringologista e, quando indicado, com teste de audição.
O que os pais podem fazer
- Registrar quando o problema começou, pois isso ajuda a contar o período de observação.
- Observar a reação da criança a sons e a conversas em ambientes silenciosos e barulhentos.
- Evitar automedicação, já que as diretrizes não mostram benefício de tratamentos medicamentosos para OME.
- Manter as consultas de acompanhamento combinadas com o médico, mesmo que a criança pareça bem.
- Informar a escola se houver perda auditiva, para que a criança sente em local favorável.
Perguntas frequentes dos pais
Líquido no ouvido é a mesma coisa que infecção de ouvido? Não. A otite aguda costuma vir com dor e febre. Já a OME, por definição, é a presença de líquido sem os sinais de infecção aguda, e muitas vezes passa despercebida. Por isso, a criança pode ter o quadro sem se queixar de nada.
A criança precisa fazer exame de audição? Quando o líquido persiste por cerca de 3 meses, a diretriz indica um teste de audição adequado à idade. O resultado ajuda o médico a decidir entre continuar observando ou considerar outras medidas.
Se o médico recomendou observar, estamos “sem tratamento”? Não. A observação é uma conduta ativa, apoiada por evidências, que evita procedimentos que podem ser desnecessários. O que a família precisa é manter o acompanhamento e avisar se houver piora.
Existe algo que previna a perda auditiva infantil? A OMS afirma que a maior parte da perda auditiva na infância tem causas evitáveis e destaca a importância de identificar e tratar cedo os problemas comuns do ouvido, além da triagem auditiva em crianças em idade pré-escolar e escolar.
Líquido no ouvido da criança é comum, muitas vezes passageiro e nem sempre exige cirurgia. O que não deve acontecer é deixar passar em branco: a audição na infância sustenta a fala, a aprendizagem e a convivência. Com avaliação adequada, o médico define se o melhor caminho é observar, acompanhar de perto ou indicar um procedimento.
Seu filho parece ouvir mal ou tem fala atrasada? Agende uma avaliação com a Dra. Mara Gândara, médica otorrinolaringologista, no consultório na Rua Teodoro Sampaio, 407, cj. 13, São Paulo. Telefones: (11) 3062-8121 | (11) 99916-5945.
Fontes
- American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery Foundation (AAO-HNSF). Updated Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion (ficha informativa). 1 fev. 2016. https://www.entnet.org/sites/default/files/feb2016omeguidelinefactsheet.pdf
- American Family Physician (AAFP). AAO-HNS Releases Updated Guideline on Management of Otitis Media with Effusion. Am Fam Physician, 1 nov. 2016. https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2016/1101/p747.html
- Rosenfeld R. M. et al. / AAO-HNSF. Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2016. https://doi.org/10.1177/0194599815623467
- AAO-HNSF. Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children (comunicado de imprensa; sem data exibida na página). https://www.entnet.org/news/aao-hnsf-clinical-practice-guideline-tympanostomy-tubes-in-children/
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Deafness and hearing loss (ficha informativa). 3 mar. 2026. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/deafness-and-hearing-loss
- Organização Mundial da Saúde (OMS). WHO highlights the importance of addressing childhood hearing loss. 3 mar. 2026. https://www.who.int/news/item/03-03-2026-who-highlights-the-importance-of-addressing-childhood-hearing-loss
- The Hearing Review. World Hearing Day 2026 to target childhood hearing loss, 2026. https://hearingreview.com/hearing-loss/world-hearing-day-2026-to-target-childhood-hearing-loss





