Poucos hábitos são tão comuns quanto passar o cotonete no ouvido depois do banho. Para muita gente, a sensação de “ouvido limpo” é quase um ritual. Só que o cotonete no ouvido está entre os hábitos que os otorrinolaringologistas mais desaconselham. E a razão passa por uma surpresa: a cera de ouvido, que tanta gente tenta eliminar, faz parte da proteção natural do conduto auditivo.
A cera de ouvido não é sujeira
O nome técnico da cera é cerume. Ela é produzida naturalmente no conduto auditivo e tem funções de proteção. Segundo um artigo da revista ENT & Audiology News sobre o tema, o cerume tem propriedades benéficas, entre elas a acidez natural, e por isso a diretriz americana recomenda não remover o cerume que não está causando problema.
Além disso, o ouvido tem um processo natural de limpeza, no qual o cerume tende a migrar das partes mais profundas do conduto para fora. Os especialistas alertam que intervir em excesso pode atrapalhar esse processo e até favorecer o acúmulo.
O que diz a diretriz americana
A Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço (AAO-HNSF) publicou em 2008 uma primeira diretriz sobre cerume e a atualizou em 2017, com 11 recomendações que tratam de higiene do ouvido, diagnóstico, fatores que mudam o manejo, necessidade de intervenção e tratamento.
Segundo a síntese publicada na revista American Family Physician, os pacientes devem ser orientados a não usar cotonetes nem objetos pequenos para limpar o ouvido.
Na época do lançamento da primeira diretriz, os especialistas explicaram a preocupação: cotonetes e outros remédios caseiros podem empurrar o cerume mais para dentro do conduto, atrapalhando a eliminação natural e favorecendo o acúmulo.
Já a organização que divulgou a atualização de 2017 listou outros riscos: objetos como grampos, chaves e palitos podem causar corte no conduto, perfuração do tímpano e até deslocamento dos ossículos (os pequenos ossos da audição), com perda auditiva, tontura e zumbido. Limpeza excessiva também pode irritar o conduto, causar infecção e até aumentar a chance de acúmulo.
Quando a cera vira um problema
A diretriz usa o termo “impactação de cerume” para a situação em que o acúmulo causa sintomas ou impede o exame do ouvido. Ou seja, o problema não é a cera em si, e sim o acúmulo que atrapalha.
Na prática, o acúmulo pode estar associado a ouvido tapado, sensação de pressão, piora da audição e outros incômodos. Mas vale lembrar: esses sintomas também podem ter outras causas, e por isso a avaliação é necessária.
Algumas situações aumentam a chance de acúmulo. Um exemplo clássico são os aparelhos auditivos e outros objetos que ficam no conduto, que atrapalham o processo natural de limpeza. Em pessoas que usam aparelho, a impactação pode inclusive reduzir o desempenho do dispositivo.
Uma reportagem sobre o lançamento da diretriz de 2008 menciona que pessoas de maior risco, como usuárias de aparelho auditivo, podem considerar uma consulta de rotina a cada 6 a 12 meses para limpeza.
Quantas pessoas procuram ajuda por causa da cera?
O tema é frequente nos consultórios. De acordo com os dados divulgados pela AAO-HNSF, cerca de 12 milhões de pessoas por ano procuram atendimento médico nos Estados Unidos por cerume em excesso ou impactado. Os números brasileiros não foram encontrados nas fontes consultadas, por isso não os citamos aqui.
A Organização Mundial da Saúde também inclui o acúmulo de cerume entre as causas de perda auditiva que podem ocorrer em qualquer fase da vida.
E, em 2026, ao tratar da audição de crianças, a OMS e a imprensa especializada destacaram o cerume impactado como uma das causas comuns e tratáveis de perda auditiva na infância, ao lado de problemas como líquido no ouvido médio.
Como o médico remove a cera
A diretriz de 2017 orienta que o cerume impactado seja tratado com um de três caminhos: medicamentos que amolecem a cera (cerumenolíticos), irrigação ou remoção manual por profissional. A diretriz não define um método preferido, e a escolha depende da avaliação do paciente.
Um artigo especializado resume que a maioria dos métodos é segura, mas a diretriz recomenda contra sistemas de irrigação de alta pressão, que podem danificar o conduto ou o tímpano.
Por isso a avaliação prévia é importante: o médico verifica fatores individuais que influenciam o método mais adequado. Também vale um alerta sobre práticas populares: tanto o FDA quanto a diretriz desaconselham as chamadas velas de ouvido (ear candling), e a diretriz de 2008 já classificava como inadequados ou potencialmente nocivos os cotonetes, os irrigadores orais de jato e as velas de ouvido.
Ao final do tratamento no consultório, a diretriz recomenda que o profissional reavalie e registre que a obstrução foi resolvida. Se não foi, é preciso continuar o tratamento.
Então, como cuidar dos ouvidos no dia a dia?
Com base nas recomendações dos especialistas, algumas atitudes simples ajudam:
- não introduzir cotonetes, grampos, chaves, palitos ou outros objetos no conduto;
- limpar apenas a parte externa da orelha, sem entrar no canal;
- não usar velas de ouvido nem jatos de água por conta própria;
- se usa aparelho auditivo, conversar com o profissional sobre a rotina de limpeza e considerar avaliação periódica;
- se há ouvido tapado, perda de audição, dor, secreção ou tontura, procurar avaliação em vez de tentar resolver em casa.
A recomendação dos especialistas, inclusive, é conversar com o médico sobre formas seguras de tratar a cera em casa quando houver tendência a acúmulo, pois existem opções com orientação profissional.
Quando procurar o otorrinolaringologista
Procure avaliação se houver ouvido tapado que não melhora, queda da audição, dor, secreção, zumbido ou tontura. Esses sinais podem ter causa em cerume impactado, mas também em outras condições que precisam ser diferenciadas por exame. Em caso de dor intensa, saída de líquido ou sangue pelo ouvido após introduzir um objeto, procure atendimento sem demora.
O ouvido tem seu próprio sistema de limpeza, e o cerume cumpre um papel de proteção. Abrir mão do cotonete pode parecer estranho no começo, mas é uma das mudanças mais simples para cuidar da saúde auditiva. Quando houver acúmulo que incomoda, o caminho seguro é a avaliação e a remoção por profissional.
Está com o ouvido tapado ou tem dúvidas sobre como cuidar da limpeza do ouvido? Agende uma consulta com a Dra. Mara Gândara, médica otorrinolaringologista, no consultório na Rua Teodoro Sampaio, 407, cj. 13, São Paulo. Telefones: (11) 3062-8121 | (11) 99916-5945.
Fontes
- American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery Foundation (AAO-HNSF). Plain Language Summary: Earwax (Cerumen Impaction). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2017. https://doi.org/10.1177/0194599816680327
- American Family Physician (AAFP). Cerumen Impaction: An Updated Guideline from the AAO–HNSF. 15 ago. 2017. https://www.aafp.org/afp/2017/0815/p263
- ENT & Audiology News. Ear wax: the good, the bad and the ugly (sem data exibida na página). https://entandaudiologynews.com/features/audiology-features/post/ear-wax-the-good-the-bad-and-the-ugly
- Hearing Health & Technology Matters. Notícia sobre a atualização da diretriz de cerume da AAO-HNS, 2017 (data exata não exibida na página). https://hearinghealthmatters.org/?p=9990
- The Hearing Review. AAO-HNSF to Issue National Guidelines for Earwax Removal, 2008. https://hearingreview.com/hearing-products/hearing-aids/ite/aao-hnsf-to-issue-national-guidelines-for-earwax-removal
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Deafness and hearing loss (ficha informativa). 3 mar. 2026. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/deafness-and-hearing-loss
- The Hearing Review. World Hearing Day 2026 to target childhood hearing loss, 2026. https://hearingreview.com/hearing-loss/world-hearing-day-2026-to-target-childhood-hearing-loss





