Saiba quando a amigdalite em crianças indica a necessidade de cirurgia

Garganta inflamada, febre, dificuldade para engolir e mais uma semana de falta na escola.

Quando isso se repete várias vezes ao longo do ano, é natural que os pais se perguntem: “será que está na hora de tirar as amígdalas?”. A resposta, segundo as diretrizes, está menos no “achismo” e mais em critérios bem definidos.

O que diz a diretriz mais utilizada

Em 2019, a Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço (AAO-HNSF) atualizou sua diretriz sobre amigdalectomia em crianças, substituindo a versão de 2011. O documento se aplica a crianças de 1 a 18 anos, segundo o resumo publicado na revista American Family Physician. A atualização incorporou 1 diretriz, 26 revisões sistemáticas e 13 ensaios clínicos randomizados publicados desde a versão anterior.

O objetivo é identificar oportunidades de melhorar o cuidado e criar recomendações claras para a prática clínica. Duas situações são tratadas separadamente: as infecções de garganta de repetição e os problemas respiratórios relacionados ao sono.

Infecções de garganta de repetição: o que conta

A primeira recomendação, classificada como forte, é a conduta de observação (watchful waiting). Ela vale quando a criança teve:

  • menos de 7 episódios de infecção de garganta no último ano; ou
  • menos de 5 episódios por ano nos últimos 2 anos; ou
  • menos de 3 episódios por ano nos últimos 3 anos.

Ou seja, a maior parte das crianças com dor de garganta recorrente não precisa de cirurgia. A recomendação de observação foi, inclusive, elevada a “forte” na atualização de 2019.

A cirurgia pode ser recomendada quando a frequência atinge pelo menos 7 episódios em 1 ano, ou pelo menos 5 por ano durante 2 anos, ou pelo menos 3 por ano durante 3 anos. Mas há uma condição fundamental: cada episódio precisa estar documentado no prontuário médico, com pelo menos um dos seguintes achados:

  • febre acima de 38,3 °C;
  • aumento dos gânglios do pescoço (adenopatia cervical);
  • placas ou secreção nas amígdalas (exsudato);
  • teste positivo para estreptococo beta-hemolítico do grupo A.

Esse rigor existe para evitar operar crianças cujas dores de garganta não eram, de fato, infecções das amígdalas. Por isso, guardar receitas, resultados de exames e registros das consultas ajuda muito na decisão.

Fatores que podem mudar a decisão

A diretriz também prevê que, em uma criança com infecções recorrentes que não atinge esses números, o médico avalie fatores modificadores que, mesmo assim, podem favorecer a cirurgia. Cada caso é individual, e esses fatores são discutidos na consulta. A decisão é compartilhada entre o médico e a família, com análise de riscos e benefícios.

Quando o problema é o sono

Amígdalas grandes podem atrapalhar a respiração durante a noite, e é aí que entra a segunda grande indicação. A diretriz recomenda que crianças com distúrbio respiratório obstrutivo do sono sejam encaminhadas para polissonografia (exame do sono) se tiverem menos de 2 anos, obesidade, síndrome de Down, alterações craniofaciais, doenças neuromusculares, doença falciforme ou mucopolissacaridoses. E recomenda a cirurgia para crianças com apneia obstrutiva do sono confirmada em polissonografia.

Isso significa que ronco frequente, pausas na respiração durante o sono e sono agitado em crianças merecem avaliação, mesmo que a garganta não doa. O ronco, aliás, é um dos temas já tratados em outro artigo do blog.

Dor e recuperação após a cirurgia

Quando a cirurgia é indicada, o pós-operatório também tem recomendações claras. Para controle da dor, a diretriz indica ibuprofeno, paracetamol ou a combinação dos dois, e desaconselha o uso de codeína em menores de 12 anos. A orientação da família sobre dor, hidratação e sinais de alerta no pós-operatório faz parte do cuidado, e também é discutida pela equipe. Não use medicamentos por conta própria: as doses e a escolha devem seguir a orientação médica.

O que os pais podem fazer

  • Anotar cada episódio de dor de garganta, com data, febre e sintomas associados.
  • Guardar exames, como testes rápidos e culturas, e receitas.
  • Observar o sono: ronco, pausas na respiração, respiração pela boca e cansaço durante o dia.
  • Evitar a automedicação com antibióticos, que só devem ser usados com indicação médica.
  • Levar essas informações à consulta com o otorrinolaringologista.

Quando procurar atendimento rapidamente

Procure atendimento sem demora se a criança tiver dificuldade para respirar, dificuldade importante para engolir a ponto de não conseguir beber líquidos, salivação excessiva, febre alta persistente ou prostração.

Observação importante sobre adultos

As recomendações descritas aqui são da diretriz para crianças. Em adultos, a avaliação segue outros parâmetros e deve ser feita caso a caso pelo médico.

Perguntas frequentes dos pais

Toda dor de garganta é amigdalite bacteriana? Não. Por isso a diretriz exige documentação de cada episódio, com achados como febre, aumento dos gânglios do pescoço, placas nas amígdalas ou teste positivo para o estreptococo. Esse registro ajuda a separar infecções das amígdalas de outros quadros de garganta.

Quantas crianças realmente precisam de cirurgia? A diretriz recomenda observar a maioria das crianças que não atingem os critérios de frequência. Isso reforça que a cirurgia não é regra, mas uma decisão baseada em critérios e individualizada.

O que o médico avalia na consulta? Além da contagem de episódios documentados, o otorrinolaringologista considera a história da criança, o exame físico da garganta e do pescoço, os sinais de problemas respiratórios durante o sono e eventuais fatores que modifiquem a decisão. Em casos de dúvida sobre o sono, pode solicitar a polissonografia.

Qual é a idade ideal para operar? A diretriz cobre crianças de 1 a 18 anos e não define uma “idade ideal”: a indicação depende do quadro clínico, dos critérios descritos acima e da avaliação individual. Alguns grupos, como crianças menores de 2 anos, têm recomendação específica para investigar o sono antes de decidir.

Operar ou não as amígdalas é uma decisão baseada em critérios: número de infecções documentadas, gravidade, impacto no sono e na vida da criança. Na maioria dos casos de dor de garganta recorrente, a conduta é observar. Quando a cirurgia é indicada, ela é bem definida. O melhor caminho é reunir informações, conversar com o otorrinolaringologista e decidir em conjunto.

Seu filho tem infecções de garganta frequentes ou ronca à noite? Agende uma avaliação com a Dra. Mara Gândara, médica otorrinolaringologista, no consultório na Rua Teodoro Sampaio, 407, cj. 13, São Paulo. Telefones: (11) 3062-8121 | (11) 99916-5945.

Fontes

  1. AAO-HNSF (Bulletin). Tonsillectomy in children update (resumo dos principais pontos da diretriz). Publicado em 4 fev. 2019. https://bulletin.entnet.org/article/tonsillectomy-in-children-update
  2. American Family Physician (AAFP). Tonsillectomy in Children: AAO–HNS Updates Guideline. Am Fam Physician, 1 set. 2019. https://www.aafp.org/afp/2019/0901/p316
  3. Mitchell R. B. et al. / AAO-HNSF. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2019. https://doi.org/10.1177/0194599818801757
  4. Universidade de Kentucky (UKY Scholars). Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update)—Executive Summary. Fev. 2019. https://scholars.uky.edu/en/publications/clinical-practice-guideline-tonsillectomy-in-children-updateexecu/
  5. Consultant360. AAO-HNSF Release New Guidelines for Pediatric Tonsillectomy (resumo jornalístico; sem data exibida). https://www.consultant360.com/consultant360/pediatrics/aao-hnsf-release-new-guidelines-pediatric-tonsillectomy
  6. Medical Dialogues. Tonsillectomy in children: Updated AAO-HNSF Guideline (resumo jornalístico; sem data exibida). https://speciality.medicaldialogues.in/tonsillectomy-in-children-updated-aao-hnsf-guideline
  7. Universidade de Kentucky (UKY Scholars). Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update) (registro da publicação). Fev. 2019. https://scholars.uky.edu/en/publications/clinical-practice-guideline-tonsillectomy-in-children-update/

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